Frustração como motivação: Conversando sobre Cultura Digital no Brasil

Sair fora da nossa zona de conforto é assustador. Estamos tão acostumados com nossas rotinas e hábitos, ou pensamos que estamos tendo um momento tão bom do jeito que somos, que qualquer coisa que nos desafia ou ameaça de alterar qualquer de nossas atividades, nos expor ao desconhecido, que poderia ser para melhor ou pior. Isto é ainda mais difícil de enfrentar quando a mudança não implica apenas uma mudança de atividades, mas uma mudança de paradigma, uma transformação na nossa maneira de pensar e entender as coisas.

Parece-me que este era o sentimento sublinhado durante os debates que ocorreram na Segunda Semana de Cultura Digital* em Campinas. O tema da semana deste ano foi: “A Internet pode subverter a ordem?”, o que provocou em cada um dos participantes, a reflexão sobre a nossa ordem atual e que mudanças, se for o caso, a Internet está causando. A maioria dos participantes concordou que SIM, Internet está mudando o campo de jogo, mas, que tipo de mudança é esta, é bom ou ruim, foi muito disputada. Esta divergência foi o que causou a maior parte do desconforto. Visão de mundo, objetivos, crenças pessoais e realidades, fez todo mundo entender a questão de forma diferente. Por exemplo, era possível ver como alguns estavam muito focados em software, outros apenas em infra-estrutura, enquanto outros estavam tentando abordar o desafio, o de incluir mais pessoas para o mundo digital, com projetos mais abrangentes, com foco não só em software e infra-estrutura, mas também com educação e apoio social. A conclusão destas diferentes perspectivas foi a sensação de que apenas poucas pessoas estão jogando para vencer neste novo ambiente. Foi possível ver alguns olhares frustrados de alguns participantes ao perceber o contexto desafiador à sua frente, já que é a sua tarefa a de trazer Cultura Digital para os mais necessitados.

Então, quais foram os desafios identificados:

  1. Há um setor privado muito experto, que está constantemente estudando a Internet para encontrar maneiras de aumentar o seu lucro. Embora as ONGs ou o governo estejam tentando encontrar maneiras de motivar as pessoas a participar mais em serviços on-line sociais, como a educação a distância, as empresas já descobriram maneiras de interagir com seus clientes, e estão fazendo isso já há vários anos. Então, algumas perguntas surgem: Devemos aprender com o setor privado? Esta atitude não comprometeria os nossos valores? O que mais podemos fazer, sem cair nos truques do mercado?
  2. Há ainda uma forte crença que apenas o acesso pode ajudar os indivíduos, por isso há muitas iniciativas oferecendo acesso a hardware, software e conectividade, o que as coloca como concorrentes das iniciativas que oferecem educação e apoio social incluso, o que torna difícil a estes últimos para encontrar apoio econômico para suas atividades. Em um ambiente acostumado aos números, como explicar que ensinar a poucas pessoas a maneira correta de usar a internet para melhorar as suas vidas é muito melhor do que ensinar um monte de gente como ligar e desligar um computador? Além disso, em uma sociedade que tem promovido tanto algumas ferramentas de internet, como o Facebook, como motivar as pessoas a assistir a cursos que vão ensinar-lhes muito mais, quando a única coisa que eles querem é usar o Facebook como seus amigos fazem? Como fazê-los perceber que muito mais é possível e que eles têm o potencial para aprender sobre isso?
  3. Este último desafio motivou alguns ativistas a começar a discutir mais detalhadamente o que é a inclusão digital, e concluíram que muito mais que um acesso simples era necessário, que eles precisavam motivar os indivíduos a produzir tanto quanto a consumir informação na Internet, é por isso que aqui no Brasil, agora eles estão falando sobre a promoção da Cultura Digital. Mas este é um desafio também. Não há um consenso sobre o termo ou em que é necessário para incentivar os cidadãos a ter mais cultura digita. A Revista ARede** afirma que uma mudança de paradigma é necessária. Há uma necessidade de mudar a alfabetação digital por uma inclusão qualificada. Esta revista também indica que algumas mudanças já estão ocorrendo, mas considerando todo o país, esta mudança esta longe de acontecer. Como ajudar a iniciativas que estão no caminho certo? Eles podem até oferecer cursos interessantes, mas, se os usuários não se inscrevem, o que fazer?
  4. Outro desafio é um que é mais conhecido: a falta de boa infra-estrutura, hardware, software e conectividade. Iniciativas governamentais estão implementando mais telecentros livres, as ONGs estão criando seus projetos em lugares que precisam de conectividade e, claro, acesso pago também pode ser encontrado em muitos lugares, mas em geral, ainda há lugares que, devido à baixa demanda, acesso não está disponível, em particular o serviço de Internet. A principal mudança neste cenário vem no foco na Internet. O acesso ao equipamento é agora mais fácil, você pode comprar um computador e levá-lo a qualquer lugar, a eletricidade não é mais um problema, mas o acesso à Internet ainda é difícil em muitos lugares. Se isso ainda é um problema, e requer grandes investimentos, como equilibrar esta necessidade com a necessidade de promover uma inclusão qualificada? Como estabelecer prioridades?

Mas nem tudo foi desconforto e frustração. O fato de ter pessoas que discutem sobre estes tópicos e avaliar como proceder, nos dá esperança para acreditar que a mudança de paradigma virá. O que precisa ser assegurado é que o entusiasmo não se esgote, fazendo as pessoas se conformem com o que temos agora, em vez de criar um futuro diferente (embora desconhecido). Como foi afirmado durante os debates, a qualidade desse futuro está em nossas próprias mãos. Está nas mãos de todos os usuários. Pela primeira vez na história, uma ferramenta de comunicação de massa está nas mãos dos usuários finais, sem quaisquer intermediários. Os intermediários têm escolhido para nós o que é notícia e o que devemos receber como informação. Mas agora, com a web 2.0, que permite que os usuários também ser produtores, podemos interagir com os outros e produzir conteúdo relevante para as nossas comunidades. As idéias podem ser compartilhadas online e movimentos de pessoas podem ser motivados. Estamos vivendo um momento histórico que pode mudar a forma como entendemos a informação e a comunicação, é por isso que eventos como esta semana que podem causar angústia e ansiedade, porque tudo parece muito complicado e desconhecido o resultado. Mas … isso é precisamente o que me dá esperança de que estamos indo na direção certa, porque eu acredito que um futuro melhor é possível, e se o que estamos fazendo agora não está funcionando, então temos que tentar diferentes maneiras. Eventos como esta semana nos servem como pontos de partida para discussões mais profundas, para perceber onde precisamos investir mais e para reconhecer outras pessoas que estão lutando com a gente, para fazer aliados e aumentar o nosso impacto.

Como eu ouvi uma vez … é bom se enfrentar com uma situação de desconforto ou frustração, porque ajuda e motiva-lo a perceber que o seu caminho não está indo no caminho certo, só então você pode mudar de direção, e melhorar a sua vida.

 

* Sobre o evento: Depois de alguns anos de discussão de temas sobre a inclusão digital, várias organizações que trabalham nele em Campinas, decidiram formalizar suas discussões em um grupo chamado “Fórum da Cultura Digital de Campinas”. E, para envolver mais pessoas nas discussões, eles organizaram a “Semana da Cultural Digital”, que acontece todos os anos, oferecendo, ao público em geral de forma gratuita, debates, seminários, oficinas e eventos culturais. Este ano foi o seu segundo evento, e gostaria que este continue crescendo e tornando-se melhor nos anos que virão.

Para mais informações: http://culturadigitalcampinas.org.br

** AREDE, 2013, Apresentação, 4o Anuário ARede de Inclusão Digital 2012-2013, Projetos da Sociedade Civil. Bit social: São Paulo, pp 10-14.

Para mais informações: http://www.arede.inf.br

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s